quinta-feira, 10 de maio de 2012
ALÉM DO RÓTULO
Há cinco anos, Jorginho, como era conhecido, enveredara no caminho das drogas. Com o tempo, para sustentar o vicio, passou a traficar; até que recebeu o convite para ingressar na organização do "movimento".
Curtiu, gastou, matou, traiu, ignorou, mudou e agora, bem agora, estava alí, ajoelhado, com um capuz na cabeça, sentindo o cano frio de uma arma encostar: "O fim" sentiu. Num breve momento, pensou na mãe, Dona Filomena, sentiu a dor de não ouvi-la; Pensou também nas vezes que riu dos amigos, que o aconselharam a mudar: "Trabalhar, é pra quem não quer ficar rico" falava. Lembrou dos sonhos de infância, quando pensava em ser piloto de avião.
Agora, não tinha mais o tempo a seu favor, apesar dos vinte e poucos anos. Tempo para rever a avó, dona Celestina, os irmãos, Luiz e André... Tempo para cantar a vida e sentir a brisa do vento da praia. Não tinha mais....
Sentiu o cano pressionar mais a área da nuca e chorou o momento de não poder mais se arrepender.
Autor: Ubirajara Oliveira
segunda-feira, 26 de março de 2012
#Poesia. A máquina do mundo - Carlos Drumond de Andrade
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.
domingo, 4 de março de 2012
Ternura
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
100 Anos de Mario Lago
Mário Lago nasceu no bairro da Lapa, berço da boemia carioca, no dia 26 de novembro de 1911. Viveu a época de ouro do samba e do florescimento da cultura popular brasileira no início do século XX. Foi ator, escritor, jornalista, compositor, dramaturgo, poeta e militante político. Um homem de vários atos.
Teatro e Televisão
Ao mesmo tempo em que se dedicava à música e ao rádio, Mário Lago também assumiu sua vocação de artista popular ao escrever para o teatro de revista. De acordo com a historiadora Monica Velloso, as peças de Mário eram consideradas "popularescas" e de "baixo nível" por causa do seu conteúdo cômico e improvisado, em uma época em que a rígida crítica teatral distinguia o teatro "sério e erudito" do teatro "baixo e popular". Mário escreveu cerca de 40 peças entre os anos 1930 e 1970. Na década de 1960, ele levou suas experiências no teatro e no rádio para a televisão.
Sua estreia ocorreu em 1963, na série "Nuvem de Fogo" em 1966, Mário Lago fez sua primeira novela, "Sheik de Agadir" da Rede Globo. Entre novelas, séries e minisséries, Mário participou de mais de 90 produções para TV. Sua última atuação foi na novela "O Clone", da TV Globo em 2001.
Música
Oriundo de uma família de músicos, Mário Lago teve contato com a música ainda na infância, durante as aulas de piano com Lucília Villa-Lobos. Mas na adolescência, abandonou os instrumentos clássicos para se dedicar ao samba. Assim como Noel Rosa, Ari Barroso e João de Barro, Mário faria parte de um grupo de jovens de classe média do Rio de Janeiro a formar parcerias com músicos populares. Entre as décadas de 1920 e 1930, passou a compor sambas e marchinhas de carnaval, como "Aurora" e "Ai, que saudades da Amélia", famosas até hoje.
Segundo Monica Velloso, autora da biografia "Mário Lago: boemia e política", Mário costumava dizer que se inspirava na vida, na boemia e na sua amizade com as prostitutas, verdadeiras contadoras de histórias. As prostitutas representavam a arte "de saber viver a vida". A partir da década de 1940, o jovem músico começou a trabalhar como ator e produtor de rádio. Foi roteirista da radionovela "Presídio de Mulheres", sucesso de audiência da Rádio Nacional na década de 1950.
Cinema
Além do rádio, do teatro e da TV, Mário Lago também se aventurou no cinema, atuando e escrevendo em várias produções entre as décadas de 190 e 1980. Apesar do currículo extenso nas telonas, o cinema não era uma das suas áreas preferidas. Conta a historiadora Monica Velloso: "Em uma de nossas entrevistas para a biografia, Mário disse certa vez que gostava mais de fazer TV, pois cinema tinha ritmo muito lento. Além de atuar, outra grande paixão dele era a música."
Mário Lago atuou em filmes como "Terra em Transe", de Glauber Rocha (1967), "O Padre e a Moça", de Joaquim Pedro de Andrade (1966) e "São Bernardo", de Leon Hirszman (1972).
Literatura
Mário Lago gostava de dedicar parte do seu tempo à literatura. O primeiro livro, "O Povo Escreve a História nas Paredes", de 1948, reunia poemas de cunho político e histórico. Durante a vida, Mário escreveria outros 11 livros, a maioria como tema principal a memória. "O Mário não se limitava a contar as próprias lembranças. Ele gostava de escrever sobre as memórias do seu país e da sua cidade, o Rio de Janeiro". revela Monica Velloso.
Atuação Política
Além da arte, Mário Lago vivia em intensa atividade política. Durante a época da faculdade, na década de 1930 (ele se formou em Direito, mas nunca exerceu a profissão) aproximou-se do Partido Comunista.
Em 1957, chegou a viajar para a União Soviética a convite da Rádio Moscou. No entanto, esse vínculo lhe rendeu algumas prisões durante o governo de Getúlio Vargas e na ditadura militar.
Segundo Monica Velloso, Mário "sobreviveu" a duas ditaduras porque ele 'interpretava' o tempo todo. "Ele contava que, graças as suas habilidades artísticas, era bem sucedido nos interrogatórios promovidos pelos militares. Foi o seu talento de ator e sua rapidez ao responder as perguntas que o salvaram dos momentos difíceis", revela a historiadora. Mário Lago atuou em várias campanhas políticas, como as Diretas Já. Com a volta da democracia no fim da década de 1980, passou a apoiar o PT nas eleições.
estadão.com.br
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Hip-Hop é a Cultura Juvenil de massa mais Politizada do Brasil
Mano Oxi *
Ouvi esse comentário na 23 ° Reunião do Conselho Nacional de Juventude que ocorreu entre os dias 14 e 15 de Dezembro em Brasília.
Me senti lisonjeado por fazer parte desta cultura há mais de quinze anos. Nesse período todo tenho de admitir que o Hip Hop vem alcançando cada vez mais espaço de visibilidade e principalmente espaço de decisão.
Atualmente no Brasil, temos mais de três vereadores eleitos pelas candidaturas do hip-hop e mais de trinta nomes que concorreram resultando em ótimas votações, além de inúmeros jovens do movimento que ocupam cargos de confiança como: assessores parlamentares, secretários de cultura, coordenadorias de Políticas Raciais, entres outros.
O Governo Federal, representado pelo Excelentíssimo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no ano de 2010 reconheceu o Movimento Hip-Hop oficialmente, criando o Prêmio Nacional da Cultura Hip-Hop que ficou conhecido como “Prêmio Preto Ghóez” (Ghóez foi um importante ativista do Hip Hop brasileiro). Este prêmio tem como objetivo principal reconhecer o Hip Hop como cultura popular da juventude historicamente excluída em nosso País.
O Hip Hop vem se organizando também no terceiro setor; são inúmeras as organizações de hip-hop que já possuem o seu CNPJ e muitas já participam de licitações, disputando verba pública para financiarem suas ações culturais nas comunidades desassistidas pelo Poder Público em âmbito Municipal, Estadual e Federal.
Há mais de dez anos, o hip-hop criou os seus próprios veículos de comunicação, seja nos canais públicos ou independentes, Jornais expressos ou pela grande teia digital conhecida mundialmente como Internet. São muitos os sites, blogs e rede sociais para informar o público sobre os acontecimentos que envolvem nossa cultura.
Aqui no Rio Grande do Sul, os últimos dois anos foram muito significativos para a valorização e reconhecimento do Hip Hop nas esferas institucionais. Por exemplo, tivemos uma boa articulação para criar a Lei Municipal e Estadual do Hip Hop (10.378 Municipal e 13.043 Estadual), instituindo nossa cultura dentro do calendário da Cidade de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande do Sul.
Em seguida, realizamos o 1º Encontro Estadual de Hip Hop que ocorreu no mês de Maio de 2009, reunindo mais de mil jovens do movimento, vindos das diferentes partes do Rio Grande do Sul no Teatro Dante Barone, na Assembléia Legislativa do Estado.
Realizamos o 1º Seminário Regional de hip-hop também em parceira com a ALERGS, onde tiramos alguns encaminhamentos dos quais irão nortear o movimento nos os próximos anos. Atualmente tramita na ALERGS o PL.124 que instituirá, quando for aprovada, uma Política Estadual do Hip Hop garantindo ações conjuntamente com o Governo do Estado.
Não posso deixar de citar o 3° Congresso de Hip-Hop que ocorreu na cidade de Santos, São Paulo, no mês de Janeiro de 2010, reunindo mais de cinco mil jovens de todos os cantos do Brasil para fazer um momento de reflexão sobre os avanços do movimento em nosso País.
Por fim, durante o mês de Outubro de 2010, foi criado o Fórum Estadual de Diálogo Permanente do Hip-Hop, instância máxima do Hip-Hop Gaúcho perante as esferas Institucionais do Estado.
Por tudo isso, acredito também que o hip-hop é a cultura juvenil de massa mais politizada do Brasil. Pode acreditá, é o Hip-Hop contribuindo para as transformações de nossa sociedade. Assim que é, um forte abraço a todos e todas.
* Rapper do grupo DNA MC's, Vice-Presidente Nacional e Presidente Estadual da Nação Hip-Hop Brasil-RS. Editor do Jornal Salve! Suplente de Vereador na Câmera de Porto Alegre.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Pensado Comigo Mesmo
a tristeza é mesmo uma invenção da alegria
uma maneira em forma de lágrima
de reciclar o coração
um arrepio gelado
pedindo proteção deperto
mas o que isso nos fala
é luz pequena das grandes somas
deque outros sonhos haverão de passar
outra pedra combrilho de ouro
nos caberá
poema extraido do livro”Poesia de Bolso CLESI” Circuito de Literatura
